terça-feira, janeiro 30, 2007

LEMINSKATA NO RECIFE

Capitão Lima, bairro de Santo Amaro. Um duo de músicos se prepara para iniciar seu show. Estampado na blusa branca da cantora, um caligrama de prata, com a letra da música “Lágrima” (“Lágrima, lágrima / lisa, leve, límpida / lágrima, lágrima / salgada e ríspida / lágrima, lágrimas / marcam etapas da vida / Lágrima, lágrimas / malditas, bem-vindas / ... / água que pode virar vida ou escorrer doída / ...”), sutilmente diz muito do que iremos em breve assistir. E foi assim, com uma lágrima no peito e armada com as contas vermelha e branca de Xangô (as cores dos seus colares), que Estrela Leminski apareceu pela primeira vez nos palcos do Recife.

Estrela veio apresentar o espetáculo “Música de Ruiz”, baseado no CD homônimo de 2006, feito em parceria com seu marido, o compositor Téo Ruiz, e lançar o seu livro de estréia “Cupido: Cuspido, Escarrado”, de 2004. Filha dos poetas Paulo Leminski e Alice Ruiz (dois dos ícones máximos da poesia brasileira dos anos 70/80, só comparáveis em popularidade a nomes como Chacal, Torquato Neto, Wally Salomão e Ana Cristina César), Estrela Ruiz Leminski vem cavando seu espaço à revelia dentro cenário literário nacional, que sem dúvida a vê com profunda desconfiança. Afinal, quem deseja instaurar uma “Literatura de Fidalgos” na República das Letras de Pindorama? No caso dela, a pressão é ainda pior. Por ser filha de Paulo e Alice, Estrela Ruiz Leminski carrega duplamente o peso de representar, de ter de responder (querendo ou não) por todos os achados e excessos da Poesia Brasileira dos Anos 70/80. Por tudo de bom e de ruim, de invenção e de diluição, por tudo que veio a reboque dos bons e dos maus leitores, não só de seus pais, mas de um Cacaso, de um Glauco Mattoso, de um Nicholas Behr ou de um Francisco Alvim. Por cima de toneladas de lixo poético na forma de hai-kais, poemas-piada, poemas-minuto, etc, coube a ela a tarefa de honrar o legado de seus pais (de rigor, leveza e inventividade) e de não dar munição aos seus detratores. A grande questão é: Estaria ela estava preparada para isso? Como escapar da Necrofilia da Arte? Da expectativa de muitos, muitos mesmo, que gostariam de enxergá-la como uma espécie de “Maria Rita” (a filha de Elis Regina) da Nova Poesia Brasileira? Como fazer isso tudo, simplesmente num livro de estréia, publicado com apenas 22 anos?

Curioso... Iniciar um livro com um apanhado de poemas de infância. Não existem parâmetros na Literatura Brasileira para discutir a produção poética de seres diáfanos como crianças, santos ou loucos. Como nos diários de Paul Klee, lá estão as primeiras lições / iniciações aprendidas / vividas por Estrela com Alice (o traço da mãe atravessando o traço da filha). Escritos dos 6 aos 12 anos, mostram Estrela Leminski brincando de Mozart Menino entre hai-kais de Sol e Chuva: (“lá o sol vai / aqui a lua vem / e você nem isso”); (“chuva forte cai lá fora / ouço haikai / hora por hora”). Memórias doces do Caminho de Swann: das asas da haijin Yuuka nasce um Cupido, um coração que se toca. Cupido... Estranhas inquietações lexicais esta palavra provoca. Afinal, um poeta não escolhe palavras à toa. Ser cupido – imagem freudiana da infância em recalque, da fase de indiferenciação dos sexos, da negação da idade adulta. Esconde-se Estrela Leminski numa infância infinita? (“Peter Pan Way / grow up / anyway tentei”); (“grama verde / a flor seca / é a estrela”); (“mãe viaja / não é mais minha / a minha casa”); (“chuá, chuá / coach, coach / tchibum! – uma divertida e inventiva recriação de Bashô); (“ser moderna é muito chato / cintura de pilão / sentimento de pilatos”). Será esta a “Estratégia da Estrela”? Infantilizar-se (assim como infantilizamo-nos diante de uma tela de Takashi Murakami ou Yoshitomo Nara) para atingir uma espécie de grau zero da escrita, um Satori para além da crítica?

Com a “infinita doçura da flor” (possível tradução para o nome de haijin outorgado a poeta Alice Ruiz pelo Nikkei Clube de Curitiba), Estrela Ruiz Leminski parece ter aprendido não só a cortar a luz, como também a exercitar sua inteligência cantabile. Estrela sabe, muito bem, como provocar o riso dos ritmos e tem a noção exata do uso das máscaras: (“Cometa que risca e nem pisca / você insiste no perfume da estrelitza / Mulher que adolesce duas vezes / não tem medo de andar a noite / ...”); (“Tem amores que são / fora do tom / Tem ritmos junto / com o tumtum do coração / Tem sons que existem porque sim / Outros porque não / Tem gente que gosta de jazz / Tem quem goste de baião / Tem melodias fusas e confusas. / Se eu dançar conforme a música / Você se toca?”). Ri por último, quem percebe o riso de Estrela.

Estrela Ruiz Leminski cresce em público. Faz de sua escrita uma bildungsdichtung, um universo em expansão. Sem pedir licença a ninguém, sabe muito bem definir os seus espaços: (“Deus escreve certo. / Mas tem a letra horrível.”); (“Sonata ou soneto / não são a nata / de quem é poeta / Não me meto / Nessa salada / eu sou o aceto”); (“Explosão demográfica / Dane-se minha função biológica / Eu vim aqui parir som // Explosão ideológica / Dane-se minha função prática / Eu vim aqui parir caos // Explosão estereotípica / Dane-se tua ilusão ótica / Eu vim aqui partir”); (“... / O vento que me siga / que me viro com a sina / ...”). Não, ela não é o fantasma de Paulo Leminski, nem o arauto vingador da Poesia Alternativa ou da Poesia Experimental. Estrela Ruiz Leminski não veio para afagar animais nostálgicos, nem para parir respostas. Do seu Cupido o que nasce é um koan, um paradoxo que se toca.

Delmo Montenegro é poeta, tradutor e ensaísta. Autor de Os Jogadores de Cartas (2003) e Ciao Cadáver (2005). Editor, junto com os escritores Fabiano Calixto, Marcelino Freire, Micheliny Verunschk e Raimundo Carrero, da revista de literatura ENTRETANTO.

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