A casa onde o axé respira em Curitiba há 50 anos.
Às vezes a internet nos devolve presentes inesperados.
Outro dia, apareceu na minha memória um vídeo antigo, publicado em 22 de janeiro de 2016 pelo projeto Lugares de Axé. Assisti de novo, como quem abre uma caixa de lembranças. E me deu vontade de escrever sobre essa casa — não como registro histórico, mas como quem já sentiu o axé pulsar ali dentro.
Quem chega ao Ilê Asé Egunoia, no Bairro Alto, talvez não imagine de imediato quantas camadas de tempo vivem naquele chão. Mas quem atravessa seu portão com o coração aberto percebe: ali não é apenas um terreiro. É um lugar de memória, de continuidade e de gratidão.
A história começa com duas figuras que marcaram profundamente a espiritualidade afro-brasileira em Curitiba: Mãe Arilda de Iansã e Pai Muzzillo de Ogum. Durante muitos anos, eles atendiam na própria casa, na Rua Dr. Muricy, no centro da cidade, praticando o culto da Umbanda. Era um tempo em que abrir as portas para a espiritualidade afro-brasileira exigia coragem — e também uma enorme generosidade.
Mais tarde, já em meados dos anos 1970, ambos haviam se iniciado no Candomblé Angola, aprofundando um caminho espiritual que transformaria não só suas vidas, mas a de muitas pessoas que encontrariam abrigo sob seu axé.
Em 1972, o centro foi transferido para o Bairro Alto. Dizem que a chegada dos igbás aconteceu em cortejo ritual pelo bairro. Gosto de imaginar essa cena: os passos solenes, o respeito no ar, a comunidade acompanhando, talvez sem entender completamente, mas percebendo que algo sagrado estava acontecendo. Um território sendo consagrado.
Pai Muzzillo partiu em 1989.
Mãe Arilda seguiu até 2004.
Mas quem conhece as casas de axé sabe: quando um sacerdote parte, ele não desaparece. Ele se torna raiz. Fica no fundamento, no chão, nas folhas, nos cantos que continuam sendo entoados.
Hoje, a família e os herdeiros seguem cuidando dessa chama. O axé continua vivo, transmitido de geração em geração, como acontece nas verdadeiras casas de tradição.
(Quem me viu saudar a presença da minha Mãe Stela de Oxum, no festival Paulo Leminski em 2024, levante a mão.)
Assistir novamente a esse vídeo me lembrou que os terreiros são também arquivos vivos da cidade. Lugares onde se guardam histórias que muitas vezes não aparecem nos livros, mas permanecem na memória das pessoas, nos rituais, nas festas e nos silêncios respeitosos diante do sagrado.
Repostar essa memória é uma forma de dizer obrigado.
Obrigado a quem abriu os caminhos.
A quem sustentou o axé quando era mais difícil.
A quem construiu uma casa que continua acolhendo, ensinando e protegendo.
Porque o axé é isso: uma corrente que atravessa o tempo.
E quando lembramos de quem veio antes, essa corrente fica ainda mais forte.
Quem quiser segue lá @ileaseegunoya
Axé.
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